Celine Dion discursando em homenagem ao amor de sua vida

No dia 14 de Janeiro de 2016 faleceu René Angelil, marido e empresário de Celine Dion, depois de uma longa batalha contra o câncer. Ele tinha 73 anos, e faleceu dois dias antes de seu aniversário. No dia 16, Celine também perde o irmão mais velho, pela mesma doença: Daniel, 59.

Pouco tempo depois, durante a celebração de vida de René, que aconteceu no Caesars Palace, Celine resolve falar sobre o seu marido de última hora, e o que vem a seguir são várias lágrimas e risos, mas mais importante, vários aprendizados. Segue transcrito.

““Escrevi algumas coisas…
Vou folhear e escolher algumas linhas, que o meu coração decida por onde ir. Acho que ouvimos de tudo. Vocês disseram tudo. Mas deixe-me começar dizendo: Boa noite, queridos amigos.

Quero começar agradecendo do fundo do meu coração por estarem aqui esta noite. Para honrar o René, o amor da minha vida.

Ele estaria feliz em saber que estamos todos aqui juntos contando histórias e compartilhando memórias. E tocando algumas de suas músicas favoritas. Especialmente nesse lindo teatro que a muitos anos atrás foi o seu sonho que se realizou.

E agradecer a vocês que falaram eloquentemente do meu querido marido. Sinto o amor aqui, a força, e o seu calor, sendo refletido em todos vocês. René sempre me cercou das melhores pessoas, que acreditaram em nós, e que sempre trabalharam muito à nossa causa. Muitos de você estão aqui conosco, e me desculpe por não nomear, porque através dos anos foram tantos os indivíduos, e René ficaria chateado se olhássemos mais para um que para outro. Mas vocês sabem que são, e o mais importante, ele sabia quem eram.

Incrivelmente, René, nunca odiou ninguém, ou teve uma opinião errada de alguém. É possível que alguém ame todos? Eu acho que não. Mas ele nunca me contou. Nunca me contou o que ele não gostava ou a pessoa que não gostava. E eu penso, porque ele não faria isso? O conhecendo bem, tenho certeza que concordam comigo: porque gastaria tempo dizendo à mim que não gosta dessa ou da outra pessoa.

O tempo era muito precioso. Ele amava muito a vida.

Ele amava muito a vida. E a vida o amou.

Ele nunca gastou um segundo dizendo algo contra alguém. E tenho certeza, vou repetir, insisto, ele tinha opinião sobre algumas pessoas. E as vezes, se posso dizer, eu tenho opiniões sobre algumas pessoas. Acho que os que o conheciam bem, sabem onde quero chegar. De maneira que nunca me permitiu dar minha opinião se não estivéssemos só.

Se não estivéssemos em família ou com amigos à mesa. Quando eu começava “mas e…”, ele me chutaria da mesa, ou fazia tipo… [caretas]. Ele me dava sinais que eu entendia MUITO bem. Que eu, sua esposa, a artista que eu sou, atrás de portas fechadas pode me dizer o que quiser, mas não em frente das pessoas. Um artista nunca julga outro. Não significa que não temos opiniões sobre aquilo, mas resultaria em que? Ao dizer que não gosto desse ou daquele?

Sei o que é preciso para se apresentar. Estar no palco e dar nosso melhor. As vezes o nosso melhor é só 30% do que restou de nós, por doenças ou porque é isso que nos resta. Damos tudo, mas não é sempre perfeito.

Mas aprendi tudo com ele. Isso é algo que eu não escrevi, mas veio à mim agora. Lembrarei disso para sempre.

Gostaria de mencionar nossos amigos e parceiros, Sony Music, AEG, Caesar’s Palace, CDA, Feeling Team, assim como tantos, e claro, os talentosos escritores, produtores e músicos que nos ajudou a modelar nossos sonhos desde o começo.

E cara… já foi dito isso antes, mas ele amava a todos. Sempre que eu conhecia alguém, e ele não estava, eu ia para casa e ele: ‘O que disseram? ’.

– Disseram que gostaram da apresentação.
– Mas o que falaram exatamente?
E eu ficava tipo… ‘disseram que… estava feliz, em estar lá…’.
– Não, mas exatamente.

E eu dizia: ‘René, não lembro’. É que quando me falam ‘Você é ótima, ótimo show…’, eu tento não… não que eu não queira ouvir: não quero que as palavras me afetem. Não quero. Quero ouvir, mas só um pouco. Se me falarem que tivemos uma grande noite, eu não quero ouvir o resto. Todos os elogios que me recusei a ouvir, provavelmente me ajudou, sem pretensão, ser pé no chão, que René sempre gostaria que eu fosse.

Sei que já disseram: de alguém que traz o jornal de manhã, à manicure, ao barbeiro aos fãs, todo mundo. De alguém sem sapato, como David disse à alguém no topo de um prédio, tomando decisões e fazendo diferença no mundo. Ninguém, aos seus olhos era mais importante que outro.

O fez grande, por isso, só uma coisa que me fez rir, porque não assisto televisão. Pode surpreende-los, eu não ouço música em casa, rádio ou TV. Talvez eu não tenha tempo, pode ser uma das razões. No carro indo para casa, tenho uns CDs, que foram sugeridos para mim ou algo que eu queria ouvir e colocar meus fones, a volta pra casa, tenho meu tempo.

Mas, os últimos dois anos tenho visto TV com ele. Se eu gostava de esportes? … Deixe-me refazer essa frase: Eu o amava muito. É bem diferente. Eu falava Touchdown quando não era hora, eu falava coisa que ele, tipo… era inapropriado. Nem tinha certeza do que eu estava assistindo. Eu não estava. Estava apenas olhando. Estava olhando para o controle remoto, e eu não achava o controle. Ele tinha todo o controle. Mas assistimos muitos programas que vocês conhecem. “The Price Is Right”. [Caretas].

Ele pensava que eu era muito, muito boa. Eu sabia o preço de tudo. Sou eu que fazia os pedidos online, então sabia. Mas enfim, só para dizer que estava assistindo os programas com ele. E, ele estava chorando, quando a pessoa no fim do programa ganhou um carro novinho em folha e uma viagem pro Havaí. A pessoa ganhando, e ele… ‘estou tão feliz por ela’. E eu ficava tipo, ual.

Ou você chamaria isso de um homem abençoado ou “vamos ter que conversar um pouco”.

René sempre fazia as pessoas se sentirem tão bem. Mesmo quando tínhamos de falar não. Sabe, é fácil dizer sim, para as crianças ou qualquer um. Dizer sim, é fácil. Dizer não, não. Ouvi dizerem aqui sobre a suavidade. Quando René dizia não – não me entenda mal, mas eu não estava nunca nessas reuniões quando tinha que dizer sim ou não. Ele me protegia, por toda minha vida, tenho certeza disso, ele não queria que eu presenciasse essa tensão, sobre o que realmente é uma reunião, quando você pede por isso e aquilo, a quantidade de dinheiro e nós precisamos disso para acontecer. Ele não me queria lá. Ele sempre me protegeu, ele queria que eu focasse. Focar no que ele acreditava que sei fazer de melhor: cantar.

Mas sempre que o escutei dizer não, que não fosse numa reunião. Quantas pessoas você conhece que dizendo não, seja por qualquer motivo, que quando a pessoa saísse, ela se sentia bem? Nunca conheci outra pessoa assim.

Nunca o ouvi com maus julgamentos. Sempre o tive como força, valores, e sempre que ele estava com essas pessoas, refletiu-se o melhor de sua natureza. Sua linda habilidade de fazer todos que ele conheceu se sentir importante e parte da família. Seu talento, seu sonho. De tratar todos, como dito antes, com respeito, carinho e muito amor.

Então eu sei que ele gostaria que eu agradecesse todos por fazerem seu sonho, uma realidade.
Em nome da minha família, obrigada novamente. Por estarem aqui conosco, para esse lindo tributo para meu amor, René: te amo… tanto! Merci.”